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segunda-feira, 30 de abril de 2012

PREÇOS SOBEM EM SÉTIMO LEILÃO DA RGGI

Quase US$ 88 milhões foram arrecadados no primeiro leilão trimestral da Iniciativa Regional de Gases do Efeito Estufa (RGGI, em inglês) em 2010 para investimentos em energias limpas.

 

Todas as mais de 40 milhões de permissões de emissão para o primeiro período de controle (2009-2011) foram vendidas a US$ 2,07, uma suave alta em relação ao leilão anterior.

 

Em uma oferta paralela, os estados da RGGI também leiloaram cerca de 2 milhões de permissões para o segundo período (2012-2014) a US$ 1,86.

 

Até agora a quantidade vendida em todos os leilões soma mais de US$ 582,3 milhões que está sendo investida, segundo a RGGI, em eficiência energética e na aceleração do emprego de tecnologias para energias renováveis, criando postos de trabalho especialmente em setores como auditoria energética e instalação de isolamento residencial.

 

O representante da comissão de usinas públicas de Nova Hampshire Clifton Below disse que os programas financiados com recursos da RGGI atualmente apóiam aproximadamente 200 postos de trabalho a tempo integral o seu estado.

 

“Os programas de eficiência ampliados, financiados em parte pela RGGI, devem criar ou manter cerca de 4 mil empregos em Massachusstts ao longo de três anos”, comentou o comissário do Departamento de Recursos Energéticos de Massachusetts Phil Giudice.

 

O sexto leilão da RGGI no início de dezembro de 2010 apresentou uma queda para US$ 2,05 nos valores das permissões de emissão, sendo que no quinto o preço de compensação foi de US$ 2,19/ton e no quarto em junho de 2009 foi de US$ 3,23.

 

A RGGI é composta por dez estados do nordeste dos Estados Unidos, são eles Connecticut, Delaware, Maine, Maryland, Massachusetts, Nova Jersey, Nova Hampshire, Nova York, Rhode Island e Vermont.

 

O primeiro esquema compulsório de mercado norte-americano impõe um limite de 188 milhões de short tons (1 short ton é igual 2000 libras ou 907.18474 quilos) ao ano até 2014 nas emissões de dióxido de carbono do setor energético. A partir de 2015 até 2018 o limite será reduzido em 2,5% ao ano. Fonte: CarbonoBrasil

 

AS MAIS DIFERENTES EXPECTATIVAS PARA A RIO+20

Os ares se agitam em torno da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, no mês de junho. Brotam as mais diferentes expectativas. O divisor de águas se fará entre a opção por encontrar soluções, mesmo que boas, dentro do atual modelo de desenvolvimento e de produção que o Ocidente vem pilotando faz séculos, ou iniciar processo radical de mudança.

 

Os termos “ecologia”, “verde”, “cuidado com a Terra” soarão, sem dúvida, de todos os lados. Ninguém ousará discursar a favor da selvagem destruição do ambiente em curso. Ela poderá continuar, mas velada e camuflada sob nomes de defesa do meio ambiente. Nenhuma mineradora, nem montadora de automóveis, nem agrobusiness terão coragem de prosseguir, sem mais, no mesmo tipo de agressão ao ambiente.

 

Mas a pergunta vai mais fundo. O que está em jogo quando se fala de sustentabilidade? Há dois pressupostos bem diferentes. Um implica o próprio sistema capitalista. Querem mantê-lo sustentável com o mínimo de destruição da natureza. Mas ele mesmo não está em questão. Buscam-se outras formas de diminuir-lhe o potencial destrutivo. No entanto, esquece-se que a lógica do capital não para diante de nenhum adversário. Ela pensa a curto prazo. A roda simples, mas fatal, do sistema funciona à base da produção para vender e acumular lucro. Não interessa se o produto pertence ao mundo da necessidade ou simplesmente pretende atrair as pessoas até ao mais despudorado supérfluo. Importa seduzir o comprador, vender, acumular capital, investir. A outra linha pensa diferente. Entra em questão a sustentabilidade do planeta.

 

E o atual sistema, ao retirar da Terra 30% a mais do que ela pode repor, levá-la-á à exaustão. Portanto, absolutamente insustentável, se pensamos em termos de vida humana. O planeta continuará a girar em torno do Sol, só que sem nós. Ou mesmo sem qualquer tipo de vida à espera de bilhões ou milhões de anos até que surja outra vida, fruto do quase infinito jogo de probabilidades. E ser humano: nem falar!

 

O verde desejado pelo sistema não significa o verde do Bem-Viver. O primeiro engana os olhos. Pois deixa a máquina destruidora a funcionar. Só o verde, que acontece nas pequenas dimensões da existência humana, que evita as devastações das mineradoras e do agrobusiness, que poupa longos transportes de alimento com produção local, que incentiva a pequena propriedade, que controla os agrotóxicos e que toma outras medidas do mesmo jaez, salva o planeta.

 

Não há verdadeiro verde sem justiça social, sem reforma agrária, sem deixar de medir um país pelo crescimento do PIB em vez do Bem-Viver de seu povo, sem buscar alternativas para a produção de energia, abandonando definitivamente a originada do petróleo, barata, desperdiçada e poluente.

 

A questão do desenvolvimento sustentável não se separa da ética, da justiça, da cultura, além naturalmente da economia. Esta não merece o primado absoluto que o sistema capitalista lhe atribui, mas cabe-lhe servir às outras dimensões do ser humano. Eis a grande inversão!

* J. B. Libanio é Padre jesuíta, escritor e teólogo. Ensina na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte, e é vice-pároco em Vespasiano.

** Publicado originalmente no site Adital.

 

domingo, 29 de abril de 2012

EMERJ PROMOVE (93ª Reunião) Fontes alternativas de energia - Fórum Permanente do Direito do Ambiente - CENTRO - RIO DE JANEIRO

2052 – EMERJ: Fórum Permanente do Direito do Ambiente

COALIZÃO PARA COMBATE AOS GASES DO EFEITO ESTUFA GANHA NOVOS MEMBROS

Quatro países (Colômbia, Japão, Nigéria e Noruega), mais a Comissão Europeia e o Banco Mundial decidiram participar de uma iniciativa formada há dois meses, conduzida pelos Estados Unidos, focando na mitigação das mudanças climáticas em curto prazo através de cortes em gases classificados como “poluentes de vida curta”.

 

Seis países (Estados Unidos, Bangladesh, Canadá, México, Gana e Suécia) criaram a Coalizão Clima e Ar Limpo (Climate and Clean Air Coalition) em fevereiro com a intenção de incentivar mudanças práticas que possam controlar emissões de agentes do aquecimento global, como o ozônio, metano, hidrofluorcarconos (HFCs) e a fuligem.

 

O anúncio dos novos membros foi feito durante o primeiro encontro ministerial da coalizão, em Estocolmo, na terça-feira (24).

“Coletivamente, eles equivalem a mais de 30% do aquecimento global atual”, disse Todd Stern, enviado especial para mudanças climáticas dos Estados Unidos, sobre os poluentes de vida curta.

 

Stern ressaltou em uma coletiva para imprensa algumas áreas que serão o foco inicial para a redução dos poluentes: trabalhar com as empresas para cortar o vazamento e queima de metano na produção de petróleo e gás, ações para a redução da fuligem (black carbon) no diesel usado para transporte; desenvolvimento de alternativas para os HFCs, eliminação das queimadas na agricultura, entre outros.

 

“O mundo pode reduzir significativamente o ritmo das mudanças climáticas com esforços para controlar os chamado “poluentes de vida curta” e levando tecnologias ocidentais bem sucedidas para o mundo em desenvolvimento”, disseram três cientistas da Universidade da Califórnia em um artigo.

 

Os cientistas dizem que as discussões climáticas da última década têm patinado, em parte, por focarem nas emissões de dióxido de carbono, um poluente “caro e difícil de controlar”.

 

No artigo “A ameaça climática que podemos derrotar”, David Victor, cientista político da School of International Relations and Pacific Studies; Charles Kennel, do Scripps Institution of Oceanography e Veerabhadran Ramanathan, cientista climático e atmosférico do Scripps, alegam que as ações sobre os poluentes de vida curta teriam maiores chances de sucesso e gerariam benefícios em curto prazo na redução do aquecimento global enquanto os países tentam outras abordagens para o controle do CO2.

 

“Até mesmo governos que estão relutantes sobre gastar dinheiro em benefício global, podem ter vantagens locais reais nesta nova estratégia”, comentou Victor. O grupo elogia a criação da coalizão, porém, ressalta que China e Índia devem participar.

Fonte: Instituto CarbonoBrasil

 

sábado, 28 de abril de 2012

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL PRECISA DE METAS

Quarenta anos após lançar na agenda internacional o debate sobre o desenvolvimento sustentável, Estocolmo conclamou os líderes que participarão da Rio+20, em junho, a partirem das palavras à ação. Divulgado ontem (25) na capital da Suécia, o documento final da conferência Estocolmo+40 pede ação e objetivos claros. Para isso, o texto inclui entre suas propostas para o encontro no Rio o estabelecimento de metas para o desenvolvimento sustentável.

 

O Chamado à Ação de Estocolmo, como foi batizado o documento final, incorporou proposta conjunta das delegações de Colômbia, Guatemala e Peru. A ideia é desenhar metas ao estilo dos Objetivos do Milênio - estabelecidos em 2000 pela ONU, para melhorias até 2015 em áreas como direito, saúde e bem-estar. "Tais metas devem ser universais para servirem como um instrumento de desenvolvimento válido para todos os países", diz o documento.

 

A lista de propostas foi entregue ao secretário-geral da Rio+20, o chinês Sha Zukang, e ao secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente (MMA) Francisco Gaetani, que representou a ministra Izabella Texeira no encerramento da conferência em Estocolmo. Após elogiar os debates nesta semana, Sha demonstrou otimismo e garantiu ajuda à Suécia e ao Brasil para divulgar o Chamado à Ação na reta final de preparação para a Rio+20.

 

Incentivos inteligentes - Para Gaetani, as negociações prévias à Rio+20 estão andando bem. O secretário-executivo destacou a atitude forte da China na Estocolmo+40, com a participação do premier Wen Jiabao na abertura do último dia de trabalhos. "As coisas estão caminhando bem. poderiam estar melhor se o mundo estivesse numa condição melhor, mas a crise financeira tende a eclipsar o debate", disse Gaetani após o encerramento da Estocolmo+40.

 

No campo das ações, o documento final da Estocolmo+40 destaca a importância de criar condições e "incentivos inteligentes" para garantir que pessoas, mercados e governos tomem "decisões sustentáveis". Um dos caminhos é apoiar a inovação de negócios sustentáveis. "Os governos precisam garantir condições básicas para permitir uma transição para uma economia verde inclusiva, levando ao crescimento contínuo", diz o texto.

 

"Espero que na Rio+20 a gente possa ter alguma urgência e tomar alguns passos para decidir que o mundo precisa de metas para o desenvolvimento sustentável", disse a ministra sueca do Meio Ambiente, Lena Ek.

 

A ministra sueca da Cooperação para o Desenvolvimento Internacional, Gunilla Carlsson, lembrou os compromissos feitos em outros debates internacionais. Por isso o foco em mais ação a partir da Rio+20. "Temos que começar a entregar [resultados] e prometer que usaremos as convenções que já temos. E, se pudermos, concordar um pouco mais em como valoramos recursos e medimos externalidades."

 

Desde segunda-feira, na mesma semana em que as negociações prévias para a Rio+20 foram retomadas em Nova York, estiveram em Estocolmo cerca de 40 ministros e 600 participantes de 72 países para reunir propostas para o encontro do Rio.

 

Seminário - Por sua vez, o Rio de Janeiro sediou ontem (25) o seminário Desenvolvimento Sustentável e a Agenda Social do Brics, também preparativo para a Rio+20. Na ocasião, especialistas destacaram que desenvolvimento sustentável e combate à pobreza precisam andar juntos nos países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). O tema é um dos pontos sensíveis da conferência da ONU, já que nações europeias preferem dissociar a questão ambiental da social nas discussões.

 

"O que é desenvolvimento sustentável para uma população que ainda está em busca de liberdade econômica? O clube do Brics ainda é muito novo, e isso pode se tornar frustrante", afirmou a pesquisadora sul-africana Sanusha Naidu, da Fundação Open Society for South Africa.

 

Presidente do grupo de trabalho da Rio+20, Sérgio Besserman também defendeu uma visão mais ampla sobre o desenvolvimento sustentável. "Não podemos discutir economia verde e pobreza como se o impacto na natureza não fosse abater as populações mais pobres. Elas são rigorosamente a mesma questão. Não faz sentido a ideia dos três pilares econômico, social e ambiental, porque estamos frente a uma única história, estamos hoje esbarrando nos limites do planeta."

 

Para o sociólogo Sérgio Abranches, os emergentes enfrentam um dilema entre assumir um compromisso ambiental internacional e proteger sua trajetória ascendente no cenário global. "A China, por exemplo, é muito ciosa desta ideia de países interferirem na sua política doméstica."

 

José Eli da Veiga, da Universidade de São Paulo (USP), acusou os países do Brics de se defenderem atrás do "biombo" do G-77 (grupo de 131 países em desenvolvimento) por não terem uma agenda clara sobre o tema. "Quando o bloco atua em conjunto, o problema é que a realidade do Brics, por serem emergentes, é muito diferente." Fonte: O Globo

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O TRUNFO DO BRASIL PARA SAIR DA RIO+20 COMO LÍDER VERDE

A menos de dois meses da Rio+20, o país anfitrião e presidente da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável guarda uma pequena carta na manga, discutida ainda discretamente nas negociações que envolvem 193 países. Trata-se da proposta de criação de um piso mundial de proteção socioambiental preparada pelo Brasil.

 

A proposta aparece no debate do desenvolvimento sustentável como prima mais robusta do piso de proteção social, uma espécie de Bolsa-Família em âmbito global já incorporado como experiência-modelo pela Organização das Nações Unidas (ONU). E tem elementos de outro programa elogiado do governo, o Bolsa Verde, que remunera famílias que vivem em unidades de conservação na Amazônia e adotam práticas ambientais sustentáveis.

 

Além de garantir uma renda mínima para combater a extrema pobreza, o piso socioambiental proporcionaria uma remuneração extra aos pobres pela proteção de florestas e a recuperação de áreas degradadas, de acordo com o esboço a que o Estado teve acesso.

 

A expectativa do Brasil é de que o piso de proteção socioambiental conste da declaração final a ser assinada pelos chefes de Estado e de governo e pelos demais representantes das Nações Unidas. “Esse será um dos principais produtos da Rio+20”, diz documento que detalha a proposta do piso e aponta como uma das possíveis fontes de financiamento a cobrança de tributo sobre movimentações financeiras.

 

O documento final da Rio+20 vem sendo negociado oficialmente desde novembro do ano passado, quando cada um dos países apresentou suas propostas. Até aqui, os rascunhos produzidos vêm sendo criticados pela falta de avanços esperados para a conferência que se realiza 40 anos depois de a Organização das Nações Unidas adotar formalmente a defesa do “desenvolvimento sustentável”, em que o crescimento econômico reconhece os limites dos recursos naturais e considera o combate à exclusão social como um de seus objetivos.

 

A começar pelo título dado ao rascunho da declaração final, “O futuro que queremos” - muito próximo de um relatório da ONU nos anos 80, chamado “Nosso futuro comum” -, as negociações seguem acanhadas. A expectativa de um fracasso da cúpula fez os negociadores brasileiros prometerem, na semana passada, resultados “ambiciosos”.

 

‘Ponto de partida.’ A promessa é uma forma de tentar driblar a expectativa de fracasso da conferência e, sobretudo, garantir a presença de líderes mundiais importantes, essencial para que o Brasil avance no projeto de consolidar sua própria liderança no debate mundial do desenvolvimento sustentável. “Temos obrigação de pensar grande”, explicou um diplomata.

 

A liderança reivindicada pelo Brasil se baseia nos resultados obtidos, até aqui, pela redução da pobreza e pelo combate ao desmatamento da Amazônia, além de uma matriz energética em grande parte renovável.

 

Pensar “grande” não significa, para os negociadores brasileiros, esperar por resultados imediatos da Rio+20. A proposta mais importante dos debates, até aqui, prevê o estabelecimento de metas do desenvolvimento sustentável a partir de 2015, com três anos de prazo para o detalhamento das metas em torno das quais os países assumiriam compromissos, e mais 15 anos de prazo - até 2030 - para o alcance das metas.

 

Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) seguem o modelo dos Objetivos do Milênio, definidos pelas Nações Unidas em 2000, com metas até 2015. A principal diferença é que todas as nações assumiriam compromissos e não apenas os países em desenvolvimento.

 

Outra diferença é um conjunto mais amplo de compromissos, envolvendo não apenas o combate à pobreza, mas provavelmente o uso de energias sustentáveis e acesso à água, por exemplo. Não está certo que os temas serão definidos já.

 

Parece pouco lançar o debate de metas para uma economia verde 20 anos depois de a Eco-92 lançar a Agenda 21, com compromissos de produção e consumo sustentáveis - grande parte deles ainda no papel. Mas os principais negociadores brasileiros acertaram o discurso de que a próxima conferência das Nações Unidas não é uma conferência “de chegada”, para o fechamento de acordos, mas uma “conferência de partida”, com o lançamento de propostas.

 

Embora seja realizada exatamente 20 anos depois da Eco-92, para o governo brasileiro, a Rio+20 deve ser vista como o primeiro passo de um projeto para os próximos 20 anos.

 

Os negociadores brasileiros alegam que o mundo mudou muito nos últimos 20 anos e um novo pacto sobre o conhecido paradigma do desenvolvimento sustentável é necessário depois da crise financeira internacional iniciada com a bancarrota do banco norte-americano de investimentos Bear Stearns, em março de 2008, e dos mais recentes sinais de empobrecimento de populações na Europa.

 

O rascunho zero da declaração final da Rio+20 registra “retrocessos” nos últimos anos para a agenda: “O desenvolvimento sustentável continua sendo uma meta distante e ainda restam grandes barreiras e lacunas sistêmicas na implementação de compromissos aceitos internacionalmente”, diz o texto, que ganhará novas versões até o Dia D da Rio+20, 22 de junho.

 

Resistências. Os negociadores lidam com resistências grandes de países em desenvolvimento reunidos no Grupo dos 77, do qual o Brasil faz parte, a restrições que venham a ser impostas por compromissos com a economia verde à comercialização de produtos desses países. O temor é de que a defesa da economia verde sirva à imposição de barreiras comerciais.

 

A saída para o imbróglio seria adotar um conceito mais flexível do que vem a ser “economia verde” ou com baixo consumo de carbono, anteciparam representantes do Itamaraty na semana passada. Foi mais um sinal das dificuldades em lidar com o assunto mais complicado da agenda do desenvolvimento sustentável, que também é obstáculo na agenda do combate ao aquecimento global: a redução das emissões de gases de efeito estufa.

 

O tema da mudança climática será tratado de forma superficial na declaração final, segundo a versão em discussão no momento. Alega-se que esse não é o tema de convocação da Rio+20.

 

Outro ponto em que falta acordo até aqui é o arranjo institucional das Nações Unidas que cuidará do acompanhamento das metas do desenvolvimento sustentável e temas como a transferência de tecnologias.

 

Para compensar temas de pouco apelo popular, a organização da Rio+20 resolveu promover dez mesas com especialistas e sem a presença dos governos, para que a sociedade civil encaminhe sugestões à declaração final. O pior cenário para os negociadores é a Rio+20 chegar ao final sem um consenso mínimo entre os 193 países nas Nações Unidas. Fontes: Revista DAE /O Estado de São Paulo

 

Um povo cercado por um anel de ferro

A poluição das siderúrgicas prejudica o ar de Piquiá de Baixo.

Foto: Gentileza da Associação de Moradores de Piquiá de Baixo

 

Rio de Janeiro, Brasil, 26/4/2012 – As 380 famílias da localidade de Piquiá de Baixo, no Maranhão, são obrigadas a conviver com a elevada contaminação da água, do ar e do solo, causada pelo vizinho polo siderúrgico. O lugar toma seu nome da árvore piquiá, que dá uma madeira altamente apreciada, mas que se extinguiu na região, onde estão instaladas, há 25 anos, cinco usinas siderúrgicas, lideradas pela Vale, empresa de mineração. Atualmente são produzidas nesse lugar 500 mil toneladas de ferro-gusa, matéria-prima do aço, que se obtém fundindo em altos fornos carvão, calcário e minério de ferro.

 

O polo de Açailândia, município com jurisdição sobre a área, depende do fortalecimento da atividade das minas de ferro da Vale, cuja produção é levada aos portos do Atlântico nas proximidades de São Luís, capital do Estado, que fica a 500 quilômetros de distância. Os moradores da pequena localidade, onde os quintais de suas modestas casas ficam ao lado dos terrenos das grandes fábricas, já apresentam em sua saúde os impactos da contaminação e da degradação ambiental.

 

Devido à péssima qualidade do ar que respiram e da água que consomem, mais de 40% dos moradores de Piquiá de Baixo se queixam de doenças e males respiratórios e dos pulmões, bem como de lesões dermatológicas, segundo um estudo do Centro de Referência em Enfermidades Infecciosas e Parasitárias, da Universidade Federal do Maranhão.

 

Esta população, que reclama sua transferência para um lugar seguro, limpo e distante do polo siderúrgico, é formada em sua maioria por agricultores que hoje só podem trabalhar a terra a mais de 200 quilômetros de suas casas. Este é um drama que se repete em muitas das cidades com atividade de mineração do Brasil, várias delas também mobilizadas.

 

Edvard Dantas Cardeal, de 68 anos, preside a associação dos moradores de Piquiá de Baixo, afetados pela fumaça e pelos resíduos gerados pelos 70 fornos de fundição existentes na região. “Estamos em perigo, pois vivemos ao lado de cinco siderúrgicas e, além disso, a Vale tem um posto de minério a 300 metros de nossas casas, e todos os dias centenas de toneladas de ferro cruzam nosso povoado durante as 24 horas do dia”, disse à IPS.

 

A denúncia das precárias condições de vida em Piquiá de Baixo está destacada no Relatório de Insustentabilidade da Vale 2012, apresentado no dia 18 no Rio de Janeiro pela Articulação Internacional dos Afetados pela Vale, que reúne 30 movimentos sociais de Brasil, Canadá, Chile, Argentina e Moçambique, alguns dos países onde a empresa atua.

A diretora-executiva da organização não governamental Justiça Global, Andressa Caldas, afirmou à IPS que o caso de Açailândia é emblemático, porque é uma comunidade assentada há mais de 50 anos e que “pede para ser trasladada devido ao grau de degradação ambiental e contaminação tóxica que sofre”.

 

Concordando com Andressa, Danilo Chammas, advogado dos moradores de Piquiá de Baixo, observou que o lugar já existia quando foi instalado o polo siderúrgico na região, há 25 anos. Agora, “a convivência se tornou inviável, já que a população respira todos os dias pó de ferro misturado com carvão”, ressaltou.

 

“O traslado das famílias deveria ter sido feito quando começou a construção do polo, e ainda hoje esta alternativa é a única e urgente”, assegurou Chammas à IPS, acrescentando que exige-se “da Vale um compromisso maior com os moradores e que, efetivamente, forneça recursos para a construção de um novo assentamento longe da contaminação”.

 

Segundo o Relatório de Insustentabilidade, a Vale “nega-se a reparar os danos causados a essas pessoas e, por conseguinte, a assumir o custo de reassentar as famílias”. Cardeal também aderiu a essa reclamação, porque sua comunidade “não pode mais ficar ali, já que existe um grande risco de a saúde pública degradar ainda mais”. E enfatizou que “não podemos mais, as siderúrgicas contaminam o rio que cruza a cidade e só podemos pedir a Deus para sair deste lugar”.

 

A IPS confirmou que existe um terreno distante do polo siderúrgico que foi expropriado em julho de 2011 pelo município de Açailândia para reassentar os moradores afetados. Apesar de inicialmente terem existido recursos legais apresentados por seu proprietário, o assunto foi resolvido no dia 20 de março pelo Tribunal de Justiça do Maranhão.

 

Cardeal e Chammas viajaram ao Rio de Janeiro tentando um encontro com representantes do consórcio Vale. “Viemos com o espírito de dialogar e para que a empresa aproveite a oportunidade para limpar sua imagem, manchada pelo vínculo que tem com as indústrias de ferro-gusa, muitas das quais promovem o trabalho escravo e infantil”, denunciou o advogado.

 

A assessoria de imprensa da Vale não quis comentar o assunto ao ser questionada pela IPS, mas depois divulgou um comunicado em resposta ao Relatório de Insustentabilidade.

 

“A Vale recebe com respeito todas as sugestões e denúncias referentes às suas operações. Temos consciência de que a atividade mineradora provoca impacto e, por isso, trabalhamos em conjunto com as comunidades e os governos para encontrar soluções que garantam segurança às pessoas, bem como uma convivência harmônica e saudável”, diz o texto da companhia. Envolverde/IPS

 

IPEA: COLETA SELETIVA CHEGA A APENAS 18% DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS

A boa notícia é que a coleta seletiva aumentou 120% nas 994 cidades que mantinham esse programa entre 2000 e 2008

 

Dois anos depois da aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em 2010, a coleta seletiva, prevista na lei, estava presente apenas em 18% dos municípios brasileiros. E, nas cidades onde ela já estava implementada, a quantidade de material recuperado nesses programas ainda era pequena quando comparado com o total coletado. Os dados constam no levantamento Plano Nacional de Resíduos Sólidos: Diagnóstico dos Resíduos Urbanos, Agrosilvopastoris e a Questão dos Catadores, divulgado nesta quarta-feira, 25 de abril, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

 

A boa notícia é que a coleta seletiva aumentou 120% nas 994 cidades que mantinham esse programa entre 2000 e 2008. Apesar do incremento das ações, o estudo mostra que, no caso dos metais, por exemplo, das 9,8 milhões de toneladas de resíduos reciclados em um ano, apenas 0,7% foi recuperado pela coleta seletiva. Na reciclagem de 3,8 milhões toneladas de papel e papelão, a coleta seletiva respondeu por 7,5% e, no caso do plástico (962 mil toneladas/ano) e vidro (489 mil toneladas/ano), a recuperação dos materiais a partir da coleta seletiva foi pouco maior que 10%.

 

De acordo com o Ipea, os números indicam que “a reciclagem no país ainda é mantida pela reciclagem pré-consumo e pela coleta pós-consumo informal”.

 

Em relação à coleta regular total, o levantamento mostra que a cobertura no país vem crescendo e alcançou, em 2009, 90% dos domicílios do país. A distribuição, entretanto, revela uma desigualdade entre a área urbana, onde a coleta supera o índice de 98%, e as áreas rurais, onde a cobertura ainda não atinge 33%.

 

“A geração de resíduos sólidos urbanos tende a aumentar não apenas com o aumento da população, mas também com o aumento da renda, principalmente quando estratos da população que tinham acesso muito restrito a produtos industrializados e embalados ganham poder de compra”, alerta o documento.

 

Lixões ainda preocupam

 

De acordo com o estudo do Ipea, mais de 74 mil toneladas de resíduos sólidos ainda são encaminhadas, diariamente, para os lixões do país ou para aterros controlados – antigos lixões que passaram por melhorias para virarem aterros. Apesar de o volume ainda ser significativo, o levantamento aponta uma redução de 18%, em oito anos, nesse tipo de destinação de resíduos.

 

Os municípios brasileiros devem eliminar os lixões até 2014, segundo estabelece a PNRS. A menos de dois anos do prazo final, o relatório aponta a existência de 2,9 mil áreas como essas distribuídas em quase 3 mil municípios. “Os consórcios públicos para a gestão dos resíduos sólidos podem ser uma forma de equacionar o problema dos municípios que ainda têm lixões como forma de disposição final”, sugerem os pesquisadores do Ipea.

 

O levantamento mostra ainda que a quantidade de resíduos e rejeitos dispostos em aterros sanitários aumentou 120%, entre 2000 e 2008. “Os municípios de pequeno e médio porte apresentaram acréscimos significativos na quantidade total de resíduos e rejeitos dispostos em aterros sanitários”, acrescenta. Para o instituto, esse incremento pode ser resultado do recebimento de resíduos produzidos, coletados ou gerados nos municípios de grande porte.

 

O Ipea ainda alerta para o problema do resíduo orgânico, que não é coletado separadamente no país. “Essa forma de destinação gera despesas que poderiam ser evitadas caso a matéria orgânica fosse separada na fonte e encaminhada para um tratamento específico, por exemplo, para compostagem”, sugere.

 

Segundo o levantamento, do total estimado de resíduos orgânicos que são coletados (94 mil toneladas por dia), apenas 1,6% é encaminhado para tratamento em usinas de compostagem, que controlam a decomposição desses materiais para obter um material final rico em nutrientes que pode ser usado como adubo, por exemplo.

 

“No geral, pode se afirmar que as maiores deficiências na gestão dos resíduos sólidos encontram-se nos municípios de pequeno porte, com até 100 mil habitantes, e naqueles localizados na região Nordeste”, avalia o relatório.

 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

RESÍDUOS É TEMA DA ABERTURA DA RODADA DE PALESTRAS DA FEIRA AMBIENTAL

Na manhã desta terça-feira (24) ocorreu no Auditório Verde da Feira Internacional de Tecnologia para Meio Ambiente – Fiema Brasil o Encontro de Gestores Públicos. O evento contou com a participação do Diretor do Departamento de Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente, Silvano Silvério Da Costa, e do Secretário Estadual do Meio Ambiente do Estado do Rio Grande do Sul, Hélio Corbelini.

 

O público formado por representantes de diversos municípios, de Organizações Não Governamentais, e setores ligados ao meio ambiente puderam conhecer mais detalhes sobre o a Plano Nacional de Resíduos Sólidos. O PNRS, criado e elaborado por Silvano Silvério, servirá como base para os programas estaduais e municipais de resíduos que também terão de ser formulados. Segundo Silvério, o objetivo é que até a primeira quinzena de junho o PNRS seja sancionado pela presidenta Dilma Rousseff. “É preciso o envolvimento de todos para que dê certo. O prazo para os municípios se adequarem a nova lei é curto, mas é uma questão de legislação, a orientação para os municípios é que elaborem seus Planos”, destaca Silvério.

 

No que diz respeito ao Rio Grande do Sul, o Secretário Estadual do Meio Ambiente, Hélio Corbellini, destacou que o projeto do Plano Estadual de Resíduos Sólidos está perfilado com as diretrizes do Ministério do Meio Ambiente. Ele conta que, a partir do final do mês de junho, ocorrerá seminários para discutir o projeto com os municípios. O grande objetivo do Rio Grande do Sul é a busca do resíduo zero. Para Corbellini, só com a participação de todas as esferas de governo, das empresas, dos catadores e toda sociedade o problema dos resíduos será equacionado “Precisamos evoluir e investir nos balcões de reciclagens. Os municípios precisam contratar as cooperativas de catadores, pois essa é uma maneira de fazer a inclusão social”, diz.

 

Sobre a Fiema Brasil os dois representantes públicos, tanto do Governo Federal quanto Estadual, salientaram que é uma das mais importantes Feiras do setor do país. “A Fiema tem ótima representatividade no país, parabenizo pela quantidade e qualidade dos temas que estão sendo discutidos no evento”, comenta o representante do Ministério do Meio Ambiente.

 

A Fiema Brasil 2012 ocorre até sexta-feira (27) no Parque de Eventos de Bento Gonçalves (RS). O horário de funcionamento da feira é das 10h às 19h. O cadastramento antecipado pode ser feito pelo www.fiema.com.br. É proibida a entrada de menores de 16 anos. Fonte: Revista DAE

LÂMPADA WAKAWAKA BUSCA ILUMINAR AS REGIÕES MAIS VULNERÁVEIS DO MUNDO

O ano de 2012 chegou, no entanto, segundo a empresa WakaWaka Shine Bright, ainda existe cerca de 1,5 bilhões de pessoas em todo o mundo sem acesso a uma fonte estável e segura de luz. Para solucionar este caso, o Studio Kalkwijk, em Nova York, criou uma lâmpada solar intitulada de WakaWaka que significa “brilhar” em suaíli. Um conceito de luz solar LED que pode caber em uma garrafa PET. A ideia é de que a novidade seja implantada nas regiões mais vulneráveis do mundo em nível social, onde é comum utilizar lampiões e querosene na iluminação noturna, o que muitas vezes ocasiona incêndios, explosões e asfixias.

 

Similar ao Solar Pebble, LuminAID e Sollight, a lâmpada deve chegar ao mercado a um preço de US$ 10, o equivalente ao que é gasto com a utilização de querosene de dois a três meses. A vantagem em relação aos seus concorrentes é que o WakaWaka, quando carregado durante um dia inteiro a base de energia solar, fornece 16 horas de luz, enquanto o Solar Pebble chega perto, com 12 horas, mas os outros ficam para trás com apenas 4 a 6 horas de tempo de uso.

 

Fora de ambientes rurais de baixa renda, a lâmpada serve como lanterna de acampamento conveniente, acessório ao ar livre, luz de leitura de cabeceira ou carregador de telefone celular. A lâmpada é leve e possui uma bateria substituível que, segundo seus fabricantes, quando utilizado em uma base diária, pode durar três anos.

 

Ação social

 

Como parte de uma iniciativa Kickstarter, que é uma plataforma de financiamento para projetos criativos, os criadores WakaWaka doarão três lâmpadas solares para os alunos e professores na escola Mwamtsefu no Quênia, a partir da doações da sociedade.

 

Na plataforma existem opções de doações desde US$1 até US$1.000. Dependendo da quantia doada, o doador receberá desde títulos de fundador do WakaWaka até a própria lâmpada solar LED e seus assessórios.

 

O WakaWaka é dirigido por Camille van Gestel, um dos fundadores do Off-Grid Solutions, uma empresa que cria soluções viáveis e acessíveis para famílias que não têm acesso à eletricidade. Se você quer apoiar este projeto, acesse a plataforma Kickstarter e faça a sua doação. Fonte: Portal EcoD

terça-feira, 24 de abril de 2012

EMPREENDEDOR INOVADOR INVENTA COLETOR SOLAR FEITO DE LIXO

Ele não revolucionou a física quântica, não descobriu a cura para o câncer e nem sabe a fórmula exata para reverter as mudanças climáticas. No entanto, o aposentado José Alcino Alano, de Tubarão (SC), fez uma pequena revolução na vida de milhares de pessoas ao criar, em 2002, um coletor solar usando materiais recicláveis.

 

Oriundo de uma família com poucos recursos financeiros, José Alcino, começou a trabalhar aos 17 anos, sem concluir o ensino médio. O trabalho de aprendiz em eletromecânica despertou a sua paixão e o pouco conhecimento que tinha na área o fez buscar um curso de elétrica por correspondência. Aos 19, ele teve uma oportunidade que mudou sua vida profissional, como ressalta: um curso teórico-prático sobre eletromecânica em Porto Alegre. 

 

Invento de José Alcino já beneficiou mais de 7 mil pessoas/Fotos: Arquivo pessoal

 

Casado com Lizete há 40 anos, José Alcino é um homem de hábitos simples. Entre seus hobbies preferidos estão um bom livro ou filme, reunião com família e amigos, além de “tentar encontrar soluções que facilitem o nosso cotidiano”. Entre essas tentativas, surgiu o coletor solar, uma experiência para tentar resolver o acúmulo de materiais recicláveis aglomerados em casa. Então, com apenas 100 garrafas PET ele e a esposa construíram o protótipo do aquecedor solar, que funciona até hoje.

 

"Não podemos nos comportar como se fosse à última geração, destruindo e consumindo de maneira irracional"

 

O aposentado patenteou o invento para garantir que nenhuma empresa se apropriasse indevidamente da criação e disponibilizou o manual, com a construção passo a passo, na internet. Na época, o custo total do projeto não passou de R$ 83,00. Mas os frutos da experiência foram além dos 30% de economia na conta de energia.

 

Em 2004, José Alcino conquistou o Prêmio Super Ecologia, na categoria solo, e, anos depois, uma parceria com a Companhia de Eletricidade do Estado de Santa Catarina (Celesc) distribuiu 10 mil manuais em comunidades de baixa renda, resultando no benefício direto de 7 mil pessoas no estado.

 

“A proposta não foi apenas oferecer um projeto simples para autoconstrução, mas sim chamar atenção sobre a baixa utilização do sol como fonte de aquecimento d’água para consumo, em um país ensolarado como o Brasil, e desmitificar que aquecedor solar é privilégio de classes sociais abastadas”, ressalta. Leia a seguir a entrevista exclusiva, na íntegra, que José Alcino Alano concedeu ao Portal Ecodesenvolvimento.org, via e-mail.

EcoD - O senhor é um autodidata. Só estudou elétrica, eletrônica e afins em cursos rápidos e por correspondência ou por meio dos livros. Já gostava de inventar antes do coletor solar?

José Alcino - Não me considero um inventor. Mas diante das dificuldades impostas pela vida, aliadas a busca pela sobrevivência, com boa vontade e obstinação as ideias surgem e ao serem postas em prática algumas se tornam viáveis de utilização particular ou coletiva.

 

EcoD - Como surgiu a ideia de construir um coletor solar a partir de materiais recicláveis? E por que patentear o invento com finalidade social?

 

Quem nasceu na década de 50, como eu e minha esposa, acompanhou toda essa transformação que ocorreu em várias áreas, principalmente no que diz respeito à tecnologia. Até a década de 70, com exceção dos enlatados, os demais alimentos eram disponibilizados em embalagens retornáveis. Atualmente chegamos ao absurdo: o peso do lixo produzido aproxima-se ao do alimento consumido. Consumir é fácil, mas qual destino dar a essas embalagens pós-consumo?

 

No caso de algumas dessas embalagens, o valor de mercado é tão baixo que não desperta o interesse, tanto dos catadores quanto das empresas de reciclagens. Somos pessoas simples, mas cientes das nossas responsabilidades como consumidores, já que desfrutamos de vários serviços e produtos em nosso dia a dia.

 

Ao guardarmos as embalagens, do nosso próprio consumo, o acúmulo foi inevitável. Como tínhamos um conhecimento básico sobre aquecimento por energia solar, em 2002 resolvemos construir um coletor solar com 100 garrafas, o qual se mostrou eficiente, dentro das limitações de um aquecedor solar alternativo. O projeto sempre contou e conta com o apoio total da família. Mas somente após a conquista do Premio Superecologia, oferecido pela revista Superinteressante em 2004, é que o mesmo ganhou conhecimento público e parcerias foram firmadas.

 

Quanto ao porquê do registro no Inpi, três foram os motivos:

  •  
  • Poder de controle e restrição para fins político-partidários;
  • Impedir a produção do mesmo por empresas do ramo;
  • Disponibilizar sem restrições para autoconstrução, ou como gerador de renda em comunidades com baixa renda por meio de cooperativas.

 

O senhor disponibilizou na internet um manual para quem quiser construir seu próprio coletor solar. Qualquer um pode confeccionar o produto ou é necessário conhecimento técnico?

 

Sim, o objetivo é que a pessoa interessada leia o manual sobre o projeto com bastante atenção. O processo é simples, mas é fundamental que a pessoa compreenda como funciona um aquecedor solar por convecção térmica (termossifão) e tenha um conhecimento básico sobre hidráulica, ou tenha a assessoria de um encanador.

 

O primeiro protótipo que o senhor construiu ainda funciona? Qual economia que ele representa?

Construímos o primeiro em 2002 - ele permanece em funcionamento. Mas devido à opacidade acentuada das garrafas PET o mesmo já apresenta uma eficiência abaixo da ideal. Por falta de tempo, ainda não trocamos as garrafas, mas em condições normais a economia de energia elétrica, em residências com poucos eletrodomésticos, pode chegar aos 30%.

 

O coletor solar proposto pelo senhor beneficia o meio ambiente de ambas as formas: reaproveitando o material reciclável e aproveitando a energia do sol - abundante, gratuita e renovável. O seu estímulo sempre foi conservar o meio ambiente humano?

 

Eu e minha família não estamos fazendo nada de extraordinário ou a favor do meio ambiente. É uma questão de sobrevivência! Não podemos nos comportar como se fosse à última geração, destruindo e consumindo de maneira irracional!

Temos a consciência da singeleza deste sistema de aquecimento solar, mas enquanto nos derem a oportunidade prosseguiremos tentando mudar conceitos imediatistas. Sem radicalismo, mas de maneira obstinada e contínua.

 

O seu invento faturou o “Prêmio Superecologia”, da revista Superinteressante, em 2004, e virou projeto do governo catarinense em 2009, beneficiando mais de 7 mil pessoas. Você acredita que o coletor solar já cumpriu sua função?

 

Quando o mesmo foi disponibilizado em domínio público, a proposta não foi apenas oferecer um projeto simples para autoconstrução, mas sim chamar atenção sobre a baixa utilização do sol como fonte de aquecimento d’água para consumo, em um país ensolarado como o Brasil, e desmitificar que aquecedor solar é privilégio de classes sociais abastadas.

Este aquecedor com garrafas PET é apenas mais uma opção, pois atualmente o mercado oferece uma variedade de aquecedores solares industrializados acessíveis a todos os bolsos.

O projeto também nos permite continuar conscientizando as pessoas da responsabilidade que todos devem ter, levando-os a reavaliar o impacto causado pelo seu estilo de consumo e a destinar corretamente as embalagens descartáveis para a reciclagem.

 

O que o senhor diria às pessoas que sonham em seguir seu exemplo e querem criar um invento que possa transformar a vida das demais?

 

Se o projeto a ser implantado tem um fim social, sem retorno financeiro, parcerias serão indispensáveis para viabilizarem a implantação e disseminação do mesmo entre a população.

Considero que de início foi o Prêmio Superecologia o responsável por atrair, de forma espontânea, as parcerias importantes que nos apoiam. Mas certamente tem sido o modo responsável com que implantamos os projetos nas entidades ou em residências de famílias com baixa renda que tem evitado qualquer mal entendido e mantido as parcerias até hoje.

Mesmo quando nos deslocamos para outras cidades ou estados, as nossas despesas são ressarcidas, mediante comprovação por notas fiscais. Penso ser a honestidade e credibilidade ingredientes indispensáveis a qualquer atitude humana, justificando a nossa restrição à classe política de se utilizarem do projeto.

 

Quais são suas considerações finais?

Não poderia encerrar esta entrevista sem registrar alguns agradecimentos: a Celesc (Centrais Elétricas de Santa Catarina AS); a Tractebel Energia; a Sema (Secretaria do Meio Ambiente do Paraná), que desde 2006 leva oficinas para quase todos os municípios paranaenses; e à imprensa, por compreender os reais objetivos do projeto.

 

Conheça o Manual do Coletor Solar de José Alcino

 

Fonte:  Redação EcoD

 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

NOVA TÉCNICA PERMITE IDENTIFICAR FONTES DE EMISSÕES DE GASES-ESTUFA

Método distingue carbono vindo de processos naturais do da queima de combustíveis fósseis

 

Poluição cria nevoeiro sobre a cidade indiana de Bangalore: diferença química entre emissões naturais e as produzidas pelo homem AFP/Dibyangshu Sarkar

 

RIO - Cientistas americanos desenvolveram um novo método que permite distinguir os gases-estufa vindos da queima de combustíveis fósseis de outros gases presentes na atmosfera, uma técnica que promete ajudar a monitorar a eficiência das medidas de corte das emissões.

 

A equipe da Universidade de Colorado analisou seis anos de medições de dióxido de carbono (CO2) e outros gases feitas por aeronaves a cada duas semanas. Eles puderam separar o CO2 derivado dos combustíveis do vindo de processos biológicos, como a respiração de plantas, porque o carvão, óleo e gás não têm carbono-14, um isótopo do elemento que está em constante produção na atmosfera.

 

Como o carbono-14 é radiativo, com o tempo ele decai, isto é, se transforma na forma comum do elemento. Sua meia-vida, ou o tempo que metade de um determinado volume da substância decai, é de 5,7 mil anos. Como os combustíveis fósseis são derivados de restos de plantas e outros materiais orgânicos acumulados há milhões de anos, o CO2 produzido por sua queima não tem carbono-14, em contraste com o emitido por fontes biológicas atuais, que são ricas no elemento.

 

O novo método criado por Scott Lehman e John Miller, pesquisadores da Universidade de Colorado, e publicado na edição desta semana do “ournal of Geophysical Research-Atmospheres”, da União Americana de Geofísica (AGU), oferece ainda a possibilidade de no futuro relacionar diretamente as emissões da queima de combustíveis fósseis a um país ou região, melhorando a técnica atual de estimar as taxas de emissão de gases-estufa com base em princípios contábeis. Estas estimativas geralmente têm como base declarações dos próprios países sobre seu consumo de carvão, óleo, gás natural e outros combustíveis fósseis.

 

- Embora o método contábil provavelmente seja acurado em uma escala global, incertezas surgem em uma escala menor – diz Miller. - E como as metas de emissões estão ficando cada vez mais comuns, pode haver a tentação de declarar um consumo de combustíveis menor, mas poderemos ver essa mentira.

 

As emissões vindas da queima de combustíveis fósseis elevaram a concentração de CO2 na atmosfera de cerca de 280 partes por milhão no início do século XIX para aproximadamente 390 partes por milhão atualmente, destacou Miller. A grande maioria dos cientistas climáticos acredita que este aumento está causando o aquecimento do planeta.

 

- Acreditamos que a abordagem fornecida por este estudo pode aumentar a acuidade da detecção das emissões e verificar a contribuição da combustão dos combustíveis fósseis e outros gases pelo homem – considera Lehman.

 

A técnica de Lehman e Miller é semelhante a uma desenvolvida por Brian Giebel, da Universidade de Miami, para identificar a “assinatura” química do álcool e outros poluentes emitidos pela queima de biocombustíveis na atmosfera e publicado em agosto passado no periódico científico “Environmental Science & Technology”.

 

Fonte: Infoglobo. Leia mais sobre esse assunto em:  http://oglobo.globo.com/ciencia/nova-tecnica-permite-identificar-fontes-de-emissoes-de-gases-estufa-4695631#ixzz1sueoArh2

 

INVESTIDORES PEDEM QUE UNIÃO EUROPEIA APOIE A EU ETS

Entidade que reúne mais de 80 empresas, que juntas somam €7,5 trilhões em recursos, pede para que ministros europeus adotem ações urgentes para lidar com a crise do Esquema de Comércio de Emissões

 

O preço dos créditos de carbono negociados no principal mercado do planeta, o Esquema de Comércio de Emissões da União Europeia (EU ETS), caiu mais de 60% desde o começo de 2011, sendo negociado atualmente na faixa dos €7, um valor muito abaixo do que seria necessário para que o mercado cumprisse seu objetivo: forçar empresas a buscar maneiras mais limpas de produção.

 

Nesta sexta-feira (20), ministros europeus vão se reunir para decidir o que pode ser feito para alterar esse quadro. Mas, como em encontros anteriores alguns países bloquearam medidas como a retirada de créditos do mercado, investidores resolveram colocar mais pressão na reunião de hoje.

 

O Institutional Investors Group on Climate Change (IIGCC), uma coalizão de 80 empresas e fundos de pensão, divulgou uma carta aberta ontem que pede uma reforma no mercado e ações imediatas para elevar o preço do carbono.

 

A entidade, que inclui gigantes como Aviva Investors, BBC Pension Trust, BNP Paribas e HSBC Investments, alega que uma combinação da recessão econômica com más políticas de geração de créditos levou a um excesso de permissões no mercado e a uma queda nos preços.

 

"O EU ETS não está produzindo os resultados para os quais foi criado. O mercado deveria reduzir as emissões ao estimular inovações tecnológicas mais limpas e eficientes. O preço atual não incentiva nem a troca de carvão por gás", afirmou Stephanie Pfeifer, diretora executiva do IIGCC.

 

A entidade também está pedindo por um aumento nas metas de redução de emissões da União Europeia, que atualmente é de 20% para 2020. Assim, a demanda por créditos cresceria.

 

"Considerando os impactos negativos que as mudanças climáticas terão na economia, os investidores temem o futuro e desejam ações decisivas agora", completou Pfeifer.

 

A ideia de elevar a meta de redução de emissões ganhou o apoio do Reino Unido. O secretário de Mudanças Climáticas, Ed Davey, declarou que seria uma medida sensata diante da queda da produção industrial, o que provocou a redução de emissões, e também que ajudaria na questão do preço do carbono.

 

Por sua vez, Connie Hedegaard, comissária europeia para Mudanças Climáticas, anunciou a antecipação para 2012 de uma revisão formal dos procedimentos de leilão de permissões de emissão sob o EU ETS que estava prevista apenas para 2013.

 

Ela completou em uma declaração publicada no site da Comissão Europeia, que com o relatório resultante da revisão ela poderá levar ao Comitê de Mudanças Climáticas alguma proposta.

 

Hedegaard também comentou que buscará adiar a liberação de novas permissões de emissão que estavam previstas para entrar no mercado este ano. Fonte: Instituto CarbonoBrasil

sexta-feira, 20 de abril de 2012

UNIVERSIDADE DAS NAÇÕES UNIDAS ABRE INSCRIÇÕES PARA MESTRADO

O Instituto de Estudos Avançados da Universidade das Nações Unidas (UNU-IAS, em inglês) está aceitando inscrições online para o seu Mestrado em Ciência para Governança Ambiental com especialização em Biodiversidade para o ano acadêmico de 2012.

 

Os graduados obterão as habilidades necessárias para explorar novas fronteiras como pesquisadores e praticantes com a compreensão sistêmica e interdisciplinar da biodiversidade, ecossistemas e desenvolvimento sustentável.

 

Para mais informações sobre taxas, duração e procedimentos, visite o site www.ias.unu.edu/masters. O prazo para candidatos que buscam auxílio financeiro é 28 de fevereiro de 2012 e o prazo geral é 30 de maio de 2012. As aulas devem iniciar em setembro. Fonte: Universidade das Nações Unidas

 

 

REPENSAR A ECONOMIA. O DESAFIO DO SÉCULO XXI. ENTREVISTA ESPECIAL COM RICARDO ABRAMOVAY, DA USP

“Não se trata de contestar o crescimento econômico por si só. Trata-se de fazer a pergunta que a ciência econômica habitualmente não faz: crescer para quê, para produzir o quê, para ter qual resultado na sociedade?”, questiona o professor titular do Curso de Economia da Universidade de São Paulo – USP. Fonte: IHU

 

Embora tenha sido possível produzir bens de consumo emitindo 21% a menos de gases de efeito estufa e consumindo 23% menos materiais, o crescimento econômico mundial foi tão expansivo, nas últimas duas décadas, que os esforços econômicos e ambientais não surtiram efeito. Com base nessas informações, e partindo de uma posição moderada, nem pessimista nem otimista demais, o professor da USP, Ricardo Abramovay (foto abaixo), destaca que, no atual período de transição para uma economia de baixo carbono, os desafios para o planeta atingir a sustentabilidade perpassam por mudanças não só na forma de produzir bens de consumo e serviço, mas também de repensar a Ciência Econômica.

 

Essas foram as discussões centrais da palestra queAbramovay ministrou na Unisinos, na última quarta-feira, 12-04-2012, participando do Ciclo de palestras Rio+20, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Apesar de ser favorável ao conceito de economia verde, um dos temas centrais a ser abordado na Rio+20, ele é enfático: “Reconhecer a importância das inovações tecnológicas embutidas na ideia de economia verde não significa dizer que a economia verde e, muito menos o suposto crescimento verde, são capazes de resolver os problemas do século XXI”. Para ele, a desconfiança que os diferentes participantes da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável têm em relação à efetividade da economia verde “tem razão de ser”. E esclarece: “Essa desconfiança só será atenuada caso se consigam associar as inovações tecnológicas da economia verde – que são importantes e necessárias, a partir da ideia de limites e luta contra as desigualdades”.

 

Antes do evento, Abramovay conversou com IHU On-Line pessoalmente e falou sobre o que significa repensar a economia e os desafios intelectuais e políticos que envolvem essa discussão. Segundo ele, o momento atual exige mudanças decisivas especialmente “nos propósitos da vida econômica. (…) Para a ciência econômica (a Economics) o sentido da vida econômica não é algo que deva ser questionado: porque cada indivíduo vai cuidar de si e o resultado vai ser o melhor para todo mundo. Isso talvez fosse verossímil em um mundo de três bilhões de pessoas. Mas em um mundo tão desigual e rumando para 10 bilhões de habitantes, temos que nos perguntar para que se produz e quais são as finalidades da vida econômica. É nesse sentido que penso que precisamos ir além da economia, ou seja, repensar a economia com base nas suas origens, como uma ciência organicamente integrada à questão do bem viver e da ética. E não como uma mecânica dos interesses individuais de cuja interação resultaria, de forma não intencional, não voluntária, maior riqueza e, portanto, supostamente, maior bem-estar”, esclarece.

 

O professor também comenta a atuação dos líderes políticos que, preocupados com o crescimento econômico, não estão atentos às questões ambientais. Em relação aos governos de esquerda e a um projeto que minimize as desigualdades sociais, ele enfatiza que “as grandes aspirações emancipatórias que marcam os movimentos socialistas desde o início do século XIX terão que ser concebidas hoje no âmbito de uma sociedade em que mercados e empresas privadas terão um papel decisivo e que não será esvanescente”. Uma discussão profunda, assegura, consiste em “repensar o mercado, vislumbrar a possibilidade de fazer dele um dos mais importantes instrumentos de transformação social. Mas não se trata absolutamente de suprimi-lo, nem imaginar que é possível ter uma instância exterior ao mercado que o controlasse e que seria o Estado”.

 

Ricardo Abramovay é graduado em Filosofia, mestre em Ciência Política e doutor em Sociologia. É professor titular do curso de Economia da Universidade de São Paulo – USP. Para acompanhar as publicações do pesquisador, acesse sua home Page www.abramovay.pro.br, ou pelo Twitter @abramovay.

 

Confira a entrevista:

 

IHU On-Line – Quais serão os temas mais críticos para o Brasil na Rio+20, considerando a agenda ambiental brasileira?

 

Ricardo Abramovay – A grande dúvida é que papel o Brasil, como liderança global, vai exercer na Rio+20. Esse papel será o de se adaptar à desconfiança que os temas ambientais veem suscitando cada vez mais no G-77, como se eles fossem sinônimo de protecionismo por parte dos países desenvolvidos, como se fossem antagônicos às grandes metas do desenvolvimento? Ou, ao contrário, o Brasil tentará mostrar para os outros países do G-77 que, submeter o comércio mundial a regras civilizatórias referentes ao trabalho e à manutenção dos serviços dos ecossistemas, dos quais dependemos, pode ser um fator fundamental não só para a sociedade, mas também para a própria prosperidade dos negócios?

 

Trata-se de dois caminhos antagônicos, e os documentos até aqui produzidos (o Rascunho Zero e o documento brasileiro) flertam com a ideia de que temas ambientais são formas usadas para impor barreiras comerciais não tarifárias. Essa ideia traz um prejuízo muito forte para o avanço da discussão global sobre o desenvolvimento sustentável.

 

IHU On-Line – Você tem uma visão otimista da economia verde, mas essa percepção não é um consenso entre ambientalistas, pesquisadores, líderes políticos e empresas. Alguns alegam que se trata de uma mercantilização das questões ambientais pela economia, e outros veem na economia verde a alternativa para pensar um mundo sustentável. Como debater e avançar na Rio+20, se cada uma das partes tem uma compreensão diferente do que seja economia verde?

 

Ricardo Abramovay – As críticas feitas por países como Cuba, Bolívia, Venezuela, Equador e alguns países do Caribe, na reunião da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe – Cepal em novembro de 2011, sobre a Rio+20, são procedentes. Por mais que se consigam avanços tecnológicos no sentido de melhorar o uso dos recursos ecossistêmicos dos materiais e da energia, e por mais que se avance em direção de energias renováveis, tudo isso é largamente insuficiente para enfrentar os grandes problemas socioambientais do século XXI. Então, reconhecer a importância das inovações tecnológicas embutidas na ideia de economia verde não significa dizer que ela (a economia verde) e, muito menos, o suposto crescimento verde são capazes de resolver os problemas que temos pela frente.

 

Para resolver essas questões, faltam duas coisas. A primeira delas resulta do fato de que, por mais que a economia verde tenha avançado, isto é, por mais que sejamos capazes de produzir cada dólar, euro, yuam ou real emitindo menos por unidade de dólar e usando menos material por unidade de dólar, isso não é suficiente para dar conta dos problemas ambientais do planeta. Nos últimos 20 anos a economia global produziu emitindo 21% a menos de gases de efeito estufa por dólar, e consumindo 23% menos de materiais (relativamente a cada unidade de valor levada ao mercado) do que há duas décadas. Só que o crescimento da economia mundial foi tão espantoso que as emissões em termos absolutos, nesses 20 anos, aumentaram 39%, e o consumo de materiais aumentou 41%. Isso mostra que é redondamente falsa a expectativa de que se pode continuar com o pé no acelerador do crescimento e, por outro lado, que se possam introduzir inovações tecnológicas que mudariam a composição e os métodos produtivos para prosseguir no ritmo atual de expansão da economia mundial.

 

IHU On-Line – Os líderes políticos têm consciência de que não é mais possível crescer dessa maneira?

 

Ricardo Abramovay – Deveriam ter, porque esses dados que citei se encontram nos principais documentos internacionais produzidos pelas Nações Unidas e pelas mais importantes consultorias globais.

 

Portanto, a desconfiança dos países que mencionei anteriormente com relação à economia verde tem razão de ser.Essa desconfiança só será atenuada caso se consigam associar as inovações tecnológicas da economia verde – que são importantes e necessárias – a dois elementos decisivos: limites e luta contra as desigualdades. Não é possível imaginar que os andares superiores da pirâmide social mundial continuem com seu atual consumo de recursos na expectativa de que a economia verde seja capaz de propiciar que todas as pessoas tenham acesso a esse mesmo patamar. As contas não fecham: não há energia e materiais suficientes para fazer isso.

 

IHU On-Line – Como os tomadores de decisão econômica tendem a se apropriar desse conceito de economia verde? Corre-se o risco de novamente mercantilizar a questão ambiental, como aconteceu na Revolução Verde, em que se aumentou a produção de alimentos, mas até hoje não se resolveu o problema da fome, sem falar na ampliação do uso de agrotóxicos? As aspirações do mercado e das corporações são as mesmas daqueles que querem um planeta sustentável? As empresas estão dispostas a fazer transformações sociais?

 

Ricardo Abramovay – As empresas agem por interesse. O interesse delas é, antes de tudo, sobreviver. Mas dizer simplesmente que as empresas visam somente o lucro e não estão preocupadas com as questões socioambientais é ingênuo. Sobretudo, no que se refere às grandes corporações, porque elas fazem estudos prospectivos relativos ao que será o mundo nos próximos 50 anos e procuram se organizar estrategicamente em função disso. Então, o que domina hoje o ambiente corporativo – se não domina ao menos tem uma forte influência – é a ideia de que estamos transitando de um mundo no qual o básico na inovação é melhorar a produtividade do trabalho e do capital para um mundo onde o mais importante desafio da inovação é melhorar a quantidade e a qualidade de bens de consumo e serviço que se consegue obter da mesma quantidade de matéria e de energia, emitindo e poluindo menos.

 

Por que as empresas estão preocupadas com isso? Por razões duplamente materiais: por causa do seu “próprio bolso”; e também pela consciência – e isso é inédito – de que matéria, recursos bióticos e energia não são infinitos e, portanto, os critérios e parâmetros para seu uso terão de ser mudados. Além disso, tem uma questão adicional que é a influência da sociedade civil sobre as empresas. Essa influência foi muito importante com relação à indústria do tabaco, cuja importância tende a declinar em função da imensa pressão social. De certa forma, a indústria automobilística, cada vez mais, também é vista dessa forma. As pessoas que vivem nos centros metropolitanos se sentem mais felizes quando conseguem organizar sua vida sem automóvel em comparação a quando conseguem acesso ao ele. A indústria agroalimentar também não poderá manter a atitude predominante até aqui de produzir alimentos que geram obesidade e tentar compensar isso colocando nos bairros pobres, quadras de esportes para as pessoas fazerem exercícios.

 

IHU On-Line – De que maneira a economia de baixo carbono poderia fomentar a indústria nacional e interferir no processo de desindustrialização?

 

Ricardo Abramovay – Foi anunciada uma medida segundo a qual o Brasil levará para a Rio+20 a ideia de que as compras públicas em todo o mundo devem ser pautadas por critérios de sustentabilidade. Isso é um elemento positivo. Mas quando se observa o que está acontecendo em termos de política industrial desde o início do atual governo, e quando se considera que estamos no ano da Rio+20, percebe-se que há distância entre desenvolvimento sustentável e as preocupações com relação à desindustrialização. Cito um exemplo: o jornal Valor Econômico publicou, no início de março, um balanço das ações do governo federal para atenuar o quadro de desindustrialização pelo qual o Brasil está passando. Nessa página do Valor há uma tabela com 16 medidas que foram tomadas desde o início do governo, e seis medidas que foram prometidas. Dessas 22 medidas, nenhuma tem relação com a economia verde. As medidas do governo, por outro lado, são de incentivar o crédito, conceder isenções fiscais, subsídios, etc. e, como sempre, com forte ênfase no setor automobilístico.

 

O Brasil está na contramão de países como a China, Coreia do Sul e EUA. Duas semanas depois da publicação dessa reportagem, houve um encontro entre os 28 principais industriais brasileiros e a presidente Dilma. O único momento em que a questão ambiental apareceu foi quando o representante da Vale se queixou da lentidão no licenciamento ambiental.

 

Ou seja, o Brasil fez algo muito importante do ponto de vista do clima, que foi reduzir o desmatamento, que era de 24 mil km² em 2004 para sete mil km² hoje. Mas temas como a questão urbana, a mobilidade e o crescimento industrialestão completamente dissociados da economia verde. É como se a economia verde fosse uma espécie de tema florestal. Nesse sentido, o Brasil está muito aquém do necessário para um país que será sede da Rio+20.

 

IHU On-Line – Pode citar alguns exemplos das iniciativas que visam alcançar maior eficiência energética e material, gerando menos poluição e impactos ao meio ambiente, que já estão sendo implantadas na China e na Coreia do Sul?

 

Ricardo Abramovay – O ritmo global da transição para a economia verde é muito mais lento do que deveria ser. Em todo caso, há exemplos importantes nos carros elétricos, em residências que não só consomem menos energia que o habitual, mas chegam a fornecer energia para a rede e nos investimentos em eólica e solar, sobretudo vindos da China. O planejamento urbano também recebeu sinais positivos, com cidades sendo pensadas em função das pessoas, e não dos carros. Esse é um dos elementos mais importantes para se conseguir compatibilizar a vida social com os ecossistemas. Cidades sustentáveis são uma grande esperança de que os limites não sejam destrutivos no sentido de bloquear as realizações das pessoas. Pelo contrário, espera-se que o enfrentamento desses limites traga para os indivíduos as maiores possibilidades de eles viverem uma vida que vale a pena ser vivida, uma vida melhor e não pior. Ou seja, uma vida em que uma pessoa não fique três horas parado dentro de um carro, em que as pessoas possam trabalhar proximamente de suas residências para que conheçam as pessoas do seu bairro e que vivam num circulo local e, ao mesmo tempo, cosmopolita. Isso porque as pessoas estão conectadas, ligadas às redes sociais.

 

IHU On-Line – Como imagina que seria a lógica de funcionamento das indústrias da economia de baixo carbono, considerando que hoje há muita pobreza no entorno das regiões nas quais estão instalados os portos, as mineradoras e as hidrelétricas? No caso da construção de um campo de energia eólica, poder-se-ia criar um bolsão de pobreza também?

 

Ricardo Abramovay – Hoje uma das grandes preocupações das mineradoras, por pressão da sociedade, é como será possível extrair minérios – porque eles são necessários – de maneira não predatória. Isso depende menos da vontade das empresas do que do ambiente em que elas estão atuando. O Brasil tem uma tendência a fazer uma mineração cada vez menos predatória. Nos países andinos, minha impressão é que os problemas socioambientais da mineração são bem mais graves do que no Brasil. Ainda é cedo para saber que regime de trabalho fazendas de energia eólica irão implantar. Mas no Nordeste brasileiro, por exemplo, elas já estão sinalizando algo positivo que são novas fontes de renda para agricultores familiares em cujas terras vão se instalar.

 

IHU On-Line – Quando o economista francês Serge Latouche esteve na Unisinos, disse que não conhecia o termo economia de baixo carbono, mas sim pós-carbono. De todo modo, ele argumenta que para resolver os problemas ambientais era preciso atuar além da economia. O senhor concorda com essa percepção? A resolução da questão ambiental passa pela economia ou está para além dela? Pensar em uma economia de baixo carbono é significativo para as transformações necessárias neste momento, ou é preciso ir além da economia?

 

Ricardo Abramovay – Nas línguas latinas, a palavra economia serve para dizer coisas que em inglês são diferentes. Ir além da economia pode significar ir além da Ciência Econômica (Economics). Isso sem dúvida é verdade, porque a Ciência Econômica padece de um duplo vício. De um lado ela, afirma-se como ciência à medida que se separa da ética, porque as decisões dos atores são tomadas em função de seus ganhos. Então, imagina se você tivesse um restaurante, e eu entrasse aí. Você não irá reduzir o preço do almoço porque eu sou eventualmente simpático a você. Quer dizer, as relações econômicas não passam por relações pessoais, e essa é a condição de eficiência. Nesse sentido, a economia se emancipa da ética. É importante essa emancipação. Em segundo lugar, a Ciência Econômica se afirma como ciência à medida que se emancipa da natureza. O nosso desafio maior, para o qual a Ciência Econômica tradicional não está municiada, é reintegrar a ética à economia, e a natureza à sociedade. Nesse sentido, concordo que temos de ir além da economia verde e da Ciência Econômica, da Economics.

 

Mas a economia real (em inglês, a Economy), entendida como o uso que a espécie humana faz dos recursos ecossistêmicos necessários à sua reprodução, como ciência do metabolismo, da relação entre a espécie humana e os meios dos quais ela dispõe para viver, não será suprimida nunca, ao menos enquanto a humanidade existir. Mas acho que não era disso que o Latouche falava. Ir além da economia, no fundo, para ele, é ir além do mercado. Claro que tem que ir além do mercado. Isso é necessário, porque tem de se fazer da economia uma ecologia social. Nosso grande desafio intelectual e político consiste em pensar como podemos nos organizar para usar os recursos de que dispomos buscando produzir cada vez mais bem-estar. Quando se fala de ir além da economia, do que se está falando? De ir além do mercado? Sim, isso é necessário. Mas o que isso significa? Ir além do mercado para fazer um planejamento central? Duvido que Latouche concorde com essa ideia. Se é ir além do mercado no sentido de que o crescimento não pode ser a orientação geral, segundo a qual se norteia o uso dos recursos, aí então a concordância com esta ideia é, felizmente, crescente e atinge segmentos do próprio mainstream da ciência econômica..

 

IHU On-Line – Qual seria, então, um novo projeto para a economia? Os Estados ainda precisam interferir mais no mercado financeiro?

 

Ricardo Abramovay – Imaginar que os Estados sejam capazes de dar conta do desafio que nós temos é ingênuo. Os Estados têm um horizonte de curto prazo e, muitas vezes, de muito mais curto prazo do que as empresas. Os Estados tendem a planejar em horizontes relativamente curtos e, mesmo quando planejam em horizontes longos, a sua gestão é muito menos clarividente do que habitualmente se supõe. Isso não significa abolir o planejamento, que é absolutamente decisivo. Muito menos as imposições legais que orientam a conduta dos agentes econômicos. Significa, isto sim, que o planejamento do uso dos recursos ecossistêmicos não responde mais à dicotomia convencional de um mercado supostamente cego e de um Estado visionário.

Hoje, temos dispositivos extremamente poderosos de conhecimento da vida social através das mídias digitais. Para se ter uma ideia: um smart phone hoje tem a mesma potência computacional do Programa Apollo, que foi para a lua em 1969. Essa potência está nas mãos das pessoas. O professor Ignacy Sachs conta que o planejamento econômico na Polônia nos anos 1950 era baseado no ábaco, um antigo instrumento de cálculo. Imagine as possibilidades de planejamento que os dispositivos digitais contemporâneos oferecem. Ainda mais que são descentralizados e estão nas mãos das pessoas. A compatibilidade entre planejamento e descentralização é muito maior do que já foi na história humana. Na tradição marxista, o planejamento seria descentralizado porque haveria assembleias, conselhos com pessoas participando, que emitiriam sinais sobre o que a sociedade quer, etc. Só que isso não funciona, resulta em autoritarismo; é ineficiente. Mas é claro que os preços não podem ser os únicos vetores informativos sobre o que é a demanda social. E os processos cooperativos aos quais a economia da informação em rede abre caminho têm um potencial transformador extraordinário.

 

IHU On-Line – Nesse sentido, qual a relevância das articulações em rede, tais como aquelas do Occupy Wall Street?

 

Ricardo Abramovay – São muito relevantes! Porque movimentos como esse representam, em primeiro lugar, uma denúncia contra a injustiça. Houve nos países desenvolvidos um processo impressionante de reconcentração de renda. A concentração de renda nos EUA, hoje, atingiu o nível que tinha em 1929, depois de ter caído durante todo esse período. Em 1980, 1% mais rico da população americana ficava com 8% da renda; hoje, esse mesmo percentual fica com 24% dela. Triplicou a participação na renda do 1% mais rico.

 

Comunidades virtuais

 

Mas tão importante quanto esse movimento, digamos assim, que assume um caráter mais espetacular e de rua, é um movimento mais difuso que se manifesta em forma de organização, de comunidades virtuais voltadas a produzir bens e serviços seja de maneira gratuita, seja de maneira paga. Um exemplo disso é a Wikipédia, que é o sétimo site mais visitado da internet, tem 300 milhões de visitas por mês e produz algo que é extremamente importante, conhecimento. A qualidade da Wikipédia é totalmente comparável à qualidade da Enciclopédia Britânica, que é feita por especialistas. A Wikipédia é feita quase que integralmente, com exceção de uma pequena equipe administrativa, em caráter voluntário e gratuito e produz uma riqueza impressionante. O Software Livre também. Inclusive, algumas empresas, como a IBM, que é uma empresa privada, se apoiam em software livre para muitos dos serviços que oferecem. Ou seja, há um borrão, uma mistura entre o mercantil, o privado e o público – o colaborativo que abre horizontes muito promissores para o funcionamento da vida econômica.

Portanto, o debate é se a cooperação humana vai poder triunfar sobre o simples autointeresse ou não. O que as mídias digitais propiciam é que essa cooperação humana ganhe uma eficiência em uma escala não paroquial completamente inédita, que abre horizontes que não conseguimos imaginar quanto à sua fertilidade.

 

IHU On-Line – Então a mudança na economia, na política e nos rumos do mercado financeiro passa por uma participação do cidadão através das redes?

 

Ricardo Abramovay – São mudanças decisivas no próprio sentido, nos objetivos, nos propósitos da vida econômica. Essa que é a questão básica da nossa conversa. Para a ciência econômica (a Economics), o sentido da vida econômica não é algo que deva ser questionado: porque cada indivíduo vai cuidar de si e o resultado vai ser o melhor para todo mundo. Isso talvez fosse verossímil em um mundo de três bilhões de pessoas. Mas em um mundo tão desigual e rumando para 10 bilhões de habitantes, temos que nos perguntar para que se produz e quais são as finalidades da vida econômica. É nesse sentido que penso que precisamos ir além da economia, ou seja, repensar a economia com base em suas origens, como uma ciência organicamente integrada à questão do bem viver e da ética, e não como uma mecânica dos interesses individuais de cuja interação resultaria, de forma não intencional, não voluntária, maior riqueza e, portanto, supostamente, maior bem-estar.

 

IHU On-Line – A segunda proposta da Rio+20 é pensar uma governança mundial. Qual deveria ser o perfil dessa governança? Ela será possível?

 

Ricardo Abramovay – Ninguém sabe. Nós sabemos criar agências nas Nações Unidas e alguns acordos internacionais, mas isso está muito aquém do mínimo necessário para se enfrentar essas questões. E, mesmo assim, não estamos fazendo nem aquilo que está nas convenções já criadas. Apesar da existência de uma Convenção da Biodiversidade ratificada amplamente, o Índice Planeta Vivo do WWF apresenta redução de 30% entre 1992 e 2008 nos trópicos, decorrente de desmatamento, poluição dos mares e aquecimento global, entre outras coisas. São realizadas reuniões climáticas anuais e as condições climáticas continuam se degradando; a desertificação não para de aumentar; os países não chegam a um acordo. E a raiz disso é que, por enquanto, nenhum governo aceitou a ideia de que é necessário repensar o sentido do crescimento econômico. Não se trata de contestar o crescimento econômico por si só. Trata-se de fazer a pergunta que a Ciência Econômica habitualmente não faz: crescer para quê, para produzir o quê, para ter qual resultado na sociedade? A ideia de que o crescimento é bom porque produz empregos, impostos e um pouco de inovação é insuficiente para legitimar o que a vida econômica representa para a sociedade.

 

IHU On-Line – Recentemente a presidente Dilma declarou que na Rio+20 não há tempo para fantasias, referindo-se àqueles que são contrários à construção de novas hidrelétricas. Como o senhor interpreta a posição brasileira de investir em mais hidrelétricas nos próximos anos, considerando que se busca um modelo sustentável?

 

Ricardo Abramovay – É normal que uma presidente diga isso. Você precisa de energia. A preocupação dela é fazer com que as coisas funcionem. Agora, o que não me parece razoável, sobretudo num país como o Brasil, é imaginar que construir hidrelétricas na Amazônia para redistribuir essa energia para o resto do país, num modelo energético altamente centralizado, seja a única maneira possível de obter segurança energética. Por mais complexa que possa ser a questão, tenho a impressão que isso é um raciocínio do século XX, não do XXI. O último livro de Jeremy Rifkin, por exemplo, menciona o esforço de produção descentralizada de energia, com a associação entre uso sustentável dos recursos e inteligência digital. É um caminho que precisa ser mais explorado.

 

IHU On-Line – Gostaria de retomar a questão de que os líderes políticos ainda não têm a percepção de investir nas questões ambientais. Tratando-se especificamente dos líderes de esquerda, como vê esse posicionamento? O que a impede a esquerda de lançar novas propostas?

 

Ricardo Abramovay – À esquerda europeia, sobretudo, se organizou até o início dos anos 1980 a partir da ideia de que o caminho da transição para uma sociedade melhor passava por nacionalizações democráticas. Era o programa da Union Populaire na França. Nacionalizar os dez maiores monopólios do país colocaria nas mãos do Estado três quartos da capacidade de investimento. Quando o governo Mitterrand, na França, assumiu o poder em 1981, a ideia que dominou era de se estatizar e nacionalizar uma parte importante da vida econômica, fazendo com que esse segmento escapasse à lógica do mercado e passasse a obedecer a uma lógica social. Isso durou um ano e foi cabalmente revertido. E o mais impressionante é: nunca mais, em qualquer parte do mundo, a esquerda voltou a conceber um modelo de transição com esse conteúdo.

 

Acerto de contas

 

Só que não se fez um acerto de contas com esta estratégia da qual hoje ninguém mais fala. Quer dizer, havia uma estratégia que, no fundo, era de crítica ao mercado e que rumava em direção à ideia segundo a qual uma sociedade melhor é aquela em que mercados e empresas privadas vão exercendo papéis cada vez menos importantes. Posteriormente, os líderes abandonaram essa ideia, só que continuaram sendo de esquerda. Se as pessoas não concordam mais com esses valores, continuam sendo de esquerda por quê?

 

As grandes aspirações emancipatórias que marcam os movimentos socialistas desde o início do século XIX terão que ser concebidas hoje no âmbito de uma sociedade em que mercados e empresas privadas terão um papel decisivo e que não será esvanescente. Os equipamentos intelectuais que tínhamos para pensar a emancipação social, quando a estratégia era a nacionalização democrática, não foram substituídos por um corpo conceitual que nos permita pensar estes processos emancipatórios no âmbito de uma sociedade em que mercados e empresas privadas são fundamentais.

O que acontece com a esquerda europeia é que, quando chega o momento da eleição, todo mundo vira anticapitalista: banaliza-se a crítica à globalização e, muitas vezes, às grandes empresas. Só que essa crítica se torna puramente retórica. A meu ver, esse impasse só pode ser substituído por uma reflexão muito séria sobre o que é empresa privada e o que são mercados. E aí justamente a economia é muito insuficiente. A sociologia, particularmente a sociologia econômica, pode dar uma contribuição muito forte.

 

IHU On-Line – A falta de proposta da esquerda decorre, em certa medida, do fato de ela ter sido cooptada pelo neoliberalismo ou por ela não ter conseguido avançar por si só?

 

Ricardo Abramovay – A social democracia foi certamente cooptada. Mas, na verdade, o problema é que se perdeu o horizonte anterior e ninguém sabe muito bem qual é o novo horizonte. Dizer que tem que ir além da economia, quando você está numa economia em que o mercado tem o papel decisivo, é complicado. O que queremos dizer com essa discussão? Menos mercado? Menos empresas privadas? Certamente há um amplo acordo sobre o fato de que o domínio das finanças sobre a vida econômica extrapolou os limites do razoável. Mas isso é um consenso mesmo em Davos. Nossa discussão é mais profunda e se refere àquilo que até aqui foi encarado como quadratura do círculo: a possibilidade de uma economia voltada ao bem-estar das pessoas e que respeite as fronteiras dos ecossistemas, mas que se organiza fortemente com base em incentivos de mercado e em organizações privadas.

Por isso que considero tão promissores os movimentos sociais que se formam a partir da sociedade da informação em rede. André Gorz depositava imensa esperança nesses movimentos emancipatórios, embora ele não tenha visto o que me parece a salutar e promissora mistura entre economia cooperativa e economia privada no interior destes movimentos.

 

IHU On-Line – A partir da história do capitalismo, o senhor vislumbra o quê?

 

Ricardo Abramovay – Não é salutar para uma sociedade moderna (foi o que mostrou o curto século XX) suprimir a concorrência nos mais diferentes planos, e não é salutar dissociar inteiramente a vida econômica dos ganhos que a oferta de bens e serviços pode traduzir para as pessoas. Mas, ao mesmo tempo, o que está se tornando mais claro é que o potencial da cooperação, da colaboração direta entre as pessoas na oferta eficiente de bens e serviços, é tão grande e foi tão maximizado com o advento da sociedade na informação em rede que nós vamos ter, provavelmente, uma mistura das duas coisas. Uma mistura, porém, que não pode ser encarada como, de um lado, um setor e, de outro lado, outro setor. Essa mistura vai ser um verdadeiro borrão em que o setor privado vai estar fortemente determinado nas suas ações por preceitos de natureza ética e de respeito aos ecossistemas, e o setor associativo também vai ter uma lógica competitiva, sem a qual ele acaba caindo no clientelismo. Isso já começa a ocorrer.

 

IHU On-Line – É como juntar um pouco das ideias da direita e um pouco das ideias da esquerda em uma terceira via, ou uma alternativa pela cooperação, como o senhor diz?

 

Ricardo Abramovay – Não é uma terceira via. Ignacy Sachs usa a figura da terceira margem do rio. È fundamental repensar o mercado, vislumbrar a possibilidade de fazer dele um dos mais importantes instrumentos de transformação social. Mas não se trata absolutamente de suprimi-lo, nem imaginar que é possível ter uma instância exterior ao mercado que o controlasse e que seria o Estado. Há uma organização empresarial norte-americana chamada Benefit Corporation que vai exatamente nessa direção. Os mercados devem converter-se em meios para atingir finalidades sociais. Num certo sentido é também o que faz o Grameen Bank, quando se associa com a Danone. Mas tudo isso é muito incipiente. É muito mais forte a reflexão cética, segundo a qual nós perdemos o horizonte, do que a reflexão propositiva, que diz que se está construindo um novo horizonte.

 

IHU On-Line – Professor, para encerrar pode nos falar sobre o seu novo livro intitulado Muito além da economia verde, que será lançado na Rio+20, pela editora Planeta Sustentável?

 

Ricardo Abramovay – Este livro nasceu de um pedido que me foi feito pela Fundação Avina para aprofundar uma reflexão sobre a nova economia, sem que soubéssemos muito bem o que este termo significava exatamente. Foi constituído um grupo, no interior da Avina que durante várias semanas realizou reuniões virtuais e isso ajudou a dar os contornos do que seria o trabalho, que acabou se tornando o livro. Não é muito habitual que organizações da sociedade civil proponham uma reflexão abrangente sobre o significado geral da vida econômica para as sociedades contemporâneas. O ponto de partida da Fundação Avina é uma categoria cara a Leonardo Boff e ao filósofo colombiano Bernardo Toro, a ética do cuidado. À primeira vista, nada poderia ser mais distante da ética do cuidado do que a frieza e a impessoalidade própria das relações econômicas numa sociedade capitalista. Muito mais do que formular ideais abstratos sobre o que poderia ser uma vida econômica em que a ética do cuidado orientasse os comportamentos, nossa reflexão conjunta procurou duas coisas. Em primeiro lugar, o texto afasta-se das soluções fáceis que consistem em dizer (como vimos no início de nossa conversa) que há soluções rápidas e indolores para a transição pela qual devemos passar.

 

Mutação

 

Talvez seja nesse sentido que Marina Silva (autora do prefácio do livro) fala que não é transição e sim mutação. Por mais importantes e necessárias que sejam as conquistas científicas e tecnológicas da economia verde, elas não são e não podem ser um atalho para permitir que a economia mundial siga no rumo do crescimento, que agora seria um crescimento sustentável. O livro se inspira no pensamento de Amartya Sen, no sentido de mostrar que o fundamental não é apenas o aumento da riqueza, mas sim o que as pessoas fazem com ela. Tão importante quanto esta abordagem crítica do crescimento econômico e da riqueza é o fato de que há sinais muito significativos de mudanças (base para as mutações das quais fala a Marina) por parte de empresas, dos Estados e de organizações da sociedade civil.

 

A quantidade e a profundidade crítica de documentos vindos de algumas das mais importantes consultorias globais são um sintoma disso. Forma-se um movimento empresarial incipiente, porém expressivo, contra a submissão da vida econômica aos imperativos das finanças. Mais do que isso, estamos vendo o início de um surpreendente questionamento, vindo do próprio meio de negócios, sobre o que significa valor. Isso entre estudiosos, consultorias, mas também no interior de algumas grandes empresas. Essa reflexão relaciona-se com um processo crescente de participação de organizações da sociedade civil na própria gestão empresarial. A sociedade da informação em rede abre, sobretudo, um horizonte, um conjunto de possibilidades para a cooperação que são muito promissoras. Sou muito grato à Fundação Avina por ter me aberto a possibilidade de aprofundar tais reflexões.