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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

CARBONO PRESTES A ESCAPAR DO ÁRTICO

Uxbridge, Canadá, 21/2/2011 – O derretimento do permafrost (camada de gelo permanente) do Ártico ameaça os esforços para impedir que o planeta esquente e se torne inabitável para os humanos. Se não se reduzir de forma drástica o uso de combustíveis fósseis, pelo menos dois terços das gigantescas reservas de carbono congelado existentes no Norte do planeta poderão ser liberados, alerta um novo estudo. Isso elevaria em vários graus as temperaturas globais, deixando inabitáveis grandes partes da Terra.

Uma vez que o Ártico esquente o suficiente, as emissões de carbono e metano do permafrost derretido amplificarão o atual ritmo de aquecimento do planeta, explicou Kevin Schaefer, cientista do Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo (NSIDC), de Boulder, no Estado norte-americano do Colorado. E isso seria irreversível. A Terra estaria a menos de 20 anos de seu ponto de inflexão. Kevin prefere usar o termo “ponto de início”, a partir do qual os 13 milhões de quilômetros quadrados de permafrost no Alasca, Canadá, Sibéria e em várias partes da Europa se converteriam em uma nova fonte de emissões de carbono.

“Nosso modelo projeta um ponto de início dentro de 15 a 20 anos, a partir de agora”, afirmou o cientista à IPS. O modelo utilizou um cenário “na metade do caminho”, calculando menor uso de combustíveis fósseis do que atualmente. Os cientistas concluíram que, mesmo nesse ritmo, entre 29% e 60% do permafrost mundial derreterá, liberando 190 gigatoneladas de carbono extra até 2200. O estudo é o primeiro a quantificar quando e quanto carbono será liberado do Ártico, e foi publicado na semana passada na revista sobre meteorologia Tellus.

“A quantidade de carbono liberada é equivalente à metade da que já foi lançada na atmosfera desde o começo da era industrial”, ressaltou Kevin. O carbono adicional do permafrost aumentará entre oito e dez graus as temperaturas médias no Ártico, informou o estudo. Isto não só transformará totalmente a região como também aumentará as temperaturas médias do planeta em cerca de três graus, alertou Kevin. E isto se somará ao aumento previsto entre três e seis graus nos próximos cem anos devido à contínua queima de combustíveis fósseis.

Kevin inclusive reconhece que o estudo subestima o que está acontecendo. O modelo não mede as liberações de metano, que são 40 vezes mais potentes do que o carbono em matéria de aquecimento. O metano poderá ter grande impacto nas temperaturas no curto prazo, acrescentou. “Haverá muitas emissões de metano. Estamos trabalhando para estimá-las”, afirmou.

O modelo tampouco inclui emissões de uma ampla região de permafrost submarino. A IPS informou anteriormente a estimativa de que oito milhões de toneladas de emissões de metano emergem a cada ano à superfície, a partir do pouco profundo Ártico do leste siberiano. Se apenas 1% do metano submarino no Ártico alcançar a atmosfera, a quantidade deste gás que existe atualmente nela será multiplicada por quatro, disse à IPS Vladimir Romanovsky, da Universidade do Alasca.

O modelo tampouco considera um processo chamado “erosão thermokarst”, reconheceu Kevin. Trata-se de um processo amplamente observado, no qual a água de degelo causa erosão no permafrost e o expõe a temperaturas mais altas, acelerando o derretimento. “Ainda não podemos calcular isso, mas poderia contribuir para grandes liberações de carbono e metano”, acrescentou.

Nada disto é considerado nas discussões políticas para reduzir as emissões de carbono e manter abaixo dos dois graus o aumento da temperatura global. Tampouco há um amplo reconhecimento de que este processo é irreversível. Mesmo se deixarmos, a partir de hoje, de usar todos os combustíveis fósseis, as temperaturas globais continuariam aumentando, e o permafrost descongelaria em outros 20 ou 30 anos, estimou Kevin. E uma vez que o carbono é liberado, “não há como recolocá-lo no permafrost”, destacou.

Entretanto, já perto do precipício, parece surgir uma saída segura. Uma nova análise acaba de demonstrar que os combustíveis fósseis poderiam ser eliminados de forma gradual até 2050, e com um estilo de vida cômodo para a população mundial. O Informe de Energia da Ecofys, consultora líder na Holanda, diz que a humanidade poderia atender 95% de suas necessidades energéticas com fontes renováveis usando a tecnologia atual.

“O informe demonstra que em quatro décadas podemos ter um mundo de vibrantes economias e sociedades usando energias totalmente limpas, baratas e renováveis, e com melhor qualidade de vida”, destacou o diretor-geral do Fundo Mundial para a Natureza, Jim Leape. Esta instituição contribuiu com a Ecofys no trabalho. “O informe é mais do que um cenário, é um chamado à ação. Podemos alcançar um futuro mais limpo e renovável, e devemos começar agora”, disse Jim em uma declaração. Envolverde/IPS

Fonte: http://www.envolverde.com.br/materia.php?cod=87089&edt - (IPS/Envolverde) – (*)Stephen Leahy, da IPS

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