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domingo, 7 de novembro de 2010

USP produzirá biodiesel com óleo descartado por restaurantes do campus

Uma usina para produção de biodiesel, a partir do óleo de fritura usado pelos restaurantes do campus, será instalada junto à garagem dos ônibus circulares. Produzido em escala reduzida, para fins de pesquisa, ele será testado nesses ônibus para análise de desempenho, emissão de gases poluentes e desgaste do motor dos veículos.

 

A usina terá capacidade para produzir 200 litros de biodiesel por dia, o que equivale ao consumo diário de combustível de um ônibus circular. José Aquiles Baesso, diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) e coordenador do projeto, relata que a partir dessa produção será possível analisar os efeitos não apenas do uso de misturas de biodiesel e diesel convencional em diversas proporções, mas também do emprego de 100% de biodiesel para mover os veículos.

 

Segundo ele, o projeto pretende ainda dar um destino à borra remanescente da filtragem do óleo de fritura, que pode ser reaproveitada na produção de fertilizantes, e a um subproduto do processo, a glicerina. A possibilidade de criar, junto a comunidades carentes, um empreendimento para utilizar a glicerina na produção de sabões também está sendo estudada.

 

A coleta do óleo de fritura será iniciativa conjunta da Coordenadoria do Campus da Capital (Cocesp), da Coordenadoria de Assistência Social (Coseas), do IEE e da Sabesp. Pretende-se, posteriormente, ampliar a captação junto à comunidade uspiana.

Aquiles afirma não haver previsão de quanto custará à universidade a produção de cada litro de biodiesel, mas observa que o cálculo deve considerar diversos fatores, como a prevenção da contaminação das águas pelo descarte indevido do óleo de fritura, o custo da logística de coleta desse óleo, o baixo custo da matéria-prima e a receita que pode ser gerada a partir da borra e da glicerina.

O coordenador nota ainda que, para o início dos testes em ônibus circulares, o projeto terá como base os resultados obtidos por instituições norte-americanas e pelo Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Limpas (Ladetel) da USP de Ribeirão Preto. Análises realizadas pelo Ladetel indicam redução nas emissões de óxidos de enxofre, em 20%, de gás carbônico, em 9,8%, de hidrocarbonetos não queimados, em 14,2%, de material particulado, em 26,8%, e de óxidos de nitrogênio, em 4,6%. Além de essas substâncias contribuírem para o aumento da poluição atmosférica e de distúrbios ambientais, para o agravamento do efeito estufa, como é o caso do gás carbônico, e para a elevação da ocorrência de chuvas ácidas, como é, principalmente, o caso dos óxidos de enxofre e nitrogênio, algumas delas, como o material particulado e os óxidos já citados, podem provocar irritação das vias respiratórias e favorecer o surgimento de problemas respiratórios.

Aquiles observa, porém, que estudos recentes têm apontado um aumento, associado à utilização do biodiesel, das emissões de óxidos de nitrogênio. Segundo ele, uma das linhas de pesquisa se dedicará, portanto, ao desenvolvimento de medidas que possam reduzir a formação de óxidos de nitrogênio durante a combustão do biodiesel. Ele afirma também não haver conhecimento suficiente sobre os efeitos do biodiesel no desgaste dos motores dos ônibus, o que deverá ser tema de outra das linhas de pesquisa.
Atraso

Com a conclusão da instalação da usina prevista para fevereiro deste ano, Aquiles relata que, devido a contratempos do fornecedor, as últimas peças só foram entregues no final de abril. Ele nota que já é possível realizar a instalação, mas que se preferiu aguardar o fim da greve dos funcionários para que a usina seja montada em local já lhe reservado pela Cocesp junto à garagem dos ônibus circulares. Segundo ele, ainda, a empresa fornecedora garante ser capaz de, no prazo de dois dias, deixar a usina apta a produzir.
Experiência da USP-RP

Em 2000, o campus de Ribeirão Preto instalou uma usina capaz de produzir 10 mil litros diários de biodiesel e o passou a utilizá-lo em seus ônibus. No entanto, Miguel Dabdoub, coordenador do projeto, relata que, devido ao subaproveitamento da capacidade produtiva e ao consequente encarecimento do empreendimento, o campus abandonou a produção de biodiesel em maior escala, produzindo-o, hoje, apenas eventualmente e em pequenas quantidades para fins de pesquisa. Segundo ele, a solução encontrada foi deixar a produção a cargo de uma empresa incubada, enquanto as pesquisas passaram a se concentrar na análise do processo produtivo e da qualidade das amostras de biodiesel cedidas pela empresa.

Dabdoub, que também coordena o Ladetel, conta que hoje os ônibus circulares do campus de Ribeirão Preto já não são mais abastecidos com o biodiesel produzido internamente, limitando a utilização do biocombustível aos 5% já adicionados ao diesel convencional, como preestabelecido em lei. De acordo com ele, embora a pesquisa em biodiesel tenha ultrapassado as fronteiras da universidade e conquistado grande projeção externa, houve pouco apoio institucional por parte da USP.

Além da análise das amostras cedidas pela empresa incubada, Dabdoub relata que hoje o campus de Ribeirão Preto mantém o programa de extensão Biodiesel em casa e nas escolas, em que a USP coleta o óleo de fritura utilizado por escolas municipais, restaurantes e outros estabelecimentos e, em retribuição, oferece aos doadores os resultados da análise do óleo, para que eles saibam se o estão utilizando corretamente. O óleo coletado é posteriormente tratado e encaminhado à empresa incubada para a produção do biodiesel.

 

Dabdoub elogia a iniciativa do campus Butantã e afirma esperar que, desta vez, “a instituição realmente encampe o projeto”, mas adverte: “se produzido com qualidade, o biodiesel é o melhor substituto para o diesel, do contrário, ele é o pior”. Entre os problemas que o biodiesel de baixa qualidade pode provocar, ele elenca o entupimento do filtro e mau funcionamento do sistema de injeção e observa que há casos de falha de veículos após três ou seis meses de utilização.

 

O coordenador do Ladetel lamenta, porém, que a universidade conheça tão pouco os projetos que os seus próprios pesquisadores desenvolvem, o que, algumas vezes, segundo ele, gera duplicidade de trabalhos. Tendo coordenado, entre 2006 e 2010, o maior programa de testes de biodiesel do país e contribuído para a elaboração dos parâmetros oficiais de qualidade sobre a produção nacional desse biocombustível, bem como para a aprovação da lei que determina a adição de 5% de biodiesel ao diesel convencional, ele afirma estar disposto a colaborar com a iniciativa do campus Butantã. José Aquiles Baesso, coordenador do projeto no campus capital, admite não conhecer detalhadamente “as linhas de pesquisa e atuação” de Miguel Dabdoub

 

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