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terça-feira, 26 de outubro de 2010

BRASIL E PERU: Saída para Pacífico: desenvolvimento e integração

Rio Branco, Brasil, 22/10/2010 – Acre, o pequeno Estado do Brasil que simboliza a luta para preservar a Amazônia, enfrenta agora o desafio de tornar sustentável o desenvolvimento imposto por duas estradas que cortam seu território e conduzem tanto ao Atlântico quanto ao Pacífico. No ano que vem, será concluída a pavimentação dos últimos trechos da rodovia BR-364, que cruza o norte do Estado, inclui cinco grandes pontes em construção e abre caminho para uma futura conexão com a região central do Peru.

Obras semelhantes no país vizinho assegurarão acesso rápido a portos no sul peruano, pelas estradas que se ligam com a BR-317, a via já asfaltada do leste do Acre, terminando na fronteira brasileira com Bolívia e Peru. Este pequeno Estado, o mais distante do Oceano Atlântico que banha a costa brasileira, agora é visto como sua porta para o Pacífico, o que reorienta seu desenvolvimento. Todas as exportações para a Ásia do Estado do Mato Grosso, maior produtor brasileiro de soja, e da agrícola Rondônia sairão por terra rumo ao Pacífico, prevê Carlos Bantel, engenheiro florestal e especialista em recursos naturais da Amazônia.

Isso permitirá economizar entre dois mil e quatro mil quilômetros por terra e meia volta à América do Sul para chegar ao Pacífico, através do canal do Panamá ou do Estreito de Magalhães. A saída para o Pacífico é um longo sonho brasileiro, que só agora tem razões determinantes, quando a China se transforma na maior importadora de produtos nacionais, avança a integração sul-americana e o oeste do país se consolida como potência agrícola.

Já não se justifica uma economia brasileira exclusivamente voltada para o Atlântico, concordam todos. Com 700 mil habitantes e escassa produção, o Acre terá um papel protagonista nesta transformação, e também sofrerá o maior impacto. Será o centro da circulação de riquezas desproporcionais à sua pequena economia, que não alcança a autossuficiência alimentar e cujas exportações alcançaram apenas US$ 21 bilhões em 2008.

O Acre conserva 88% de sua cobertura vegetal original, segundo dados do governo, porque é “final de linha” da expansão econômica brasileira, disse Missias Lopes, funcionário do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), especializado em história econômica. A maioria de sua população chegou da região Nordeste, de onde emigrou para extrair borracha das seringueiras (Hevea brasiliensis), principalmente no início do Século 20 e durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Na época, o governo mobilizou jovens para fornecer látex às tropas aliadas, diante do bloqueio das fontes asiáticas pelo Japão, inimigo naquela luta. Eram proibidos de produzir qualquer outra coisa que não fosse látex, provocando “a perda da cultura” agrícola, como “aconteceu com meu pai, um dos ‘soldados da borracha’ procedentes do Nordeste”, contou Missias.

O Acre se desviou para a atividade pecuária nas décadas de 1970 e 1980, o que, junto com a construção de rodovias, desmatou vastas extensões. Porém, a resistência dos seringueiros e ambientalistas conteve esse processo e recuperou a economia extrativista do látex, acrescentou. Como resultado desse movimento surgiram “reservas extrativistas”, áreas públicas de conservação e uso sustentável de recursos naturais, sob a liderança de Chico Mendes, assassinado em 1988 e herói dos “povos da floresta” e ambientalistas.

Nessa luta também se destacou Marina Silva, a candidata a presidente do Partido Verde, que obteve 19,3% dos votos no dia 3 de outubro, forçando a realização do segundo turno para escolher o novo presidente do Brasil. O governador que deixará o cargo e o que assumirá anunciaram que o Estado não será simples rota de exportação de terceiros e buscará a industrialização de suas próprias matérias-primas, como madeira e carne, inclusive para venda ao exterior.

Uma Zona de Processamento de Exportação, que está sendo construída em Senador Guiomard, um município próximo à capital Rio Branco, receberá a partir de janeiro empresas que pagarão baixos impostos se exportarem 80% ou mais de sua produção. Contudo, a esperada avalanche de investimentos aumenta a preocupação dos ambientalistas. As estradas são “o pior predador ambiental”, disse Carlos Bantel, também professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Acre.

Além disso, a atividade madeireira tem o vício da ilegalidade, porque os baixos preços do mercado não compensam os custos adicionais dos cuidados ambientais, acrescentou Carlos. A Secretaria Florestal do Acre assegura que 95% da madeira do Estado vem do manejo sustentável, sem o desmatamento do passado. A exportação estimulará a pecuária, em um Estado que havia contabilizado 2,45 milhões de bovinos em 2006, o triplo de dez anos antes e equivalente a quatro cabeças pro habitante.

Isso se reflete na monótona paisagem de pastagens ao longo das BR-314 e BR-317, onde o gado é o maior fator de desmatamento amazônico. A rede rodoviária será importante para a integração do Acre com o Peru e para sua integração interna. A BR-364, uma vez asfaltada, gerará um transporte perene entre municípios até agora isolados durante, aproximadamente, oito meses ao ano, devido às chuvas que deixam intransitáveis as estradas de terra.

Zenildo de Freitas não depende da estrada, mas navega por três horas pelos rios Purus e Iaco para vender suas abóboras e frutas em Sena Madureira, a 150 quilômetros de Rio Branco. Por isso não vende vegetais, que são perecíveis, e calcula que “80% do que é comercializado no mercado local chega por rio”. A precariedade do abastecimento, especialmente na estação das chuvas, é um argumento a favor das rodovias asfaltadas e da integração com o Peru, excelente mercado para a carne acreana.

Do outro lado da fronteira, acredita-se que a integração rodoviária “beneficiará somente o Brasil, que ambiciona chegar ao Pacífico sem passar pelo Panamá” e que, como potência industrial, “quer pegar tudo”, disse Grimaldo Taboada, derrotado candidato à prefeitura da pequena Iñapari. Nessa cidade começa a parte peruana da Rodovia Interoceânica Sul e é onde empresas brasileiras constroem vários trechos da estrada no vizinho país, o que parece corroborar com a opinião do dirigente do opositor Partido Nacionalista.

“O Brasil é muito protecionista”, acrescentou sua filha, Maritza Taboada, que criticou as barreiras alfandegárias, fitossanitárias e normas técnicas que impedem a entrada de produtos típicos peruanos pela fronteiriça região Madre de Dios, como os que ela produz. Quanto ao turismo, pai e filha reconhecem que o Peru sairá favorecido, porque a estrada aumentará o fluxo de brasileiros a Cusco e Machu Pichu.

A estrada dinamizará o comércio em Iñapari e “talvez faça o governo nos dar mais atenção”, disse a peruana Baldina Coila. “Muitas crianças de Iñapari estudam em escolas brasileiras”, da vizinha cidade de Assis Brasil, porque são de graça e “aqui se paga para iniciar, por mês e inclusive por reunião de que não se participa”, ressaltou. Envolverde/IPS

(IPS/Envolverde)

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